sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O DIA DOS IMORTAIS

Crônica

Hoje, 2 de novembro, é o Dia dos Mortos, dedicado aos parentes e amigos já falecidos, propondo-se pranteá-los, homenageá-los com visitas aos respectivos túmulos, deixando-se ali uma flor, uma vela acesa ou apenas lágrimas. Como se ali estivesse a pessoa amada, admirada ou respeitada. Como se ela tomasse conhecimento daquela presença e daquela ação. Assim, o homem continua preservando e homenageando a matéria, mesmo após a sua falência, a decomposição do corpo em moléculas, em átomos e finalmente, em energia que se desprende totalmente dos seus resíduos, nada mais restando, além dos ossos, que são trasladados para uma caixa e guardados ad eternum.

Graças a esse procedimento milenar, podemos hoje descobrir e estudar o passado, desenterrando os restos mortais de reis e de plebeus, indo aqueles para os museus e estes para os laboratórios de pesquisa. Reis que construiram pirâmides e mausoléus monumentais, acreditando que dessa forma permaneceriam vivos na eternidade, preservando seus tesouros para recuperá-los em sua volta, numa outra vida. São, assim, os cemitérios tradicionais, ainda hoje, testemunhos da classe dominante de uma comunidade e de toda uma nação, que assim preserva os seus valores religiosos e artísticos nos sepulcros construídos e adornados com os símbolos de sua época.

Isto é uma coisa: a cultura da História com seus arquivos documentais, associados a tais testemunhos dos indivíduos que a fizeram e de certa forma atingiram a imortalidade, como seres materiais de carne e osso, conforme pretenderam. Outra coisa é a crença de que essas pessoas também alcançam a imortalidade em outro plano, dito espiritual, porque não material. Doravante, devemos utilizar, respetivamente, os termos psíquico e físico, para esses planos.

Os seres animais, isto é, os que têm alma (anima), a força que movimenta os corpos vivos, surgiram da evolução dos vegetais, que recebem a energia vital diretamente do Sol, pela fotossíntese e a energia para crescer e multiplicar a partir dos elementos químicos tirados do solo, através de suas raízes. Sem tais raízes, os animais desenvolveram estruturas móveis que recebem a energia vital do Sol através do ar que respiram e a energia para crescer, multiplicar e trabalhar a partir dos elementos químicos tirados do alimento ingerido cotidianamente.

Isso estabelecido, sabemos também que nos animais, surgiu e desenvolveu-se o cérebro e com ele o indivíduo, isto é, o ego, passando a evolução a se fazer não apenas em grupo, isto é, nas espécies, mas segundo a experiência de cada indivíduo, inicialmente dentro de colônias (formigas, cupins, abelhas) nas quais o indivíduo é a colônia, isto é, sua raínha; seguindo-se os seres maiores e mais complexos, em bandos (aves, peixes, etc), sob o comando de um dos seus componentes; até que o cérebro ganhou um adendo e apareceu o réptil, dono de si mesmo. Daí para os mamíferos, crescendo a autonomia e a individualidade, chegou-se ao homem e com este um cérebro mais desenvolvido, intelectual.

A evolução do ego, assim, atinge, no homem, o estádio de fazer e compreender símbolos e com estes criar a linguagem; estudar a natureza e explorá-la parcial e oportunamente; criar estruturas de abrigo e de exploração política, econômica e social; entre outras performances, ao fim das quais a cultural, científica e religiosa, em busca de conhecer a si mesmo, sua origem e seu destino, após a morte. Sua ignorância, neste campo, o tem levado a crenças de imortalidade não apenas do corpo ou da memória deste, como já vimos, mas também da alma (força que, no entanto, só existe no corpo, chegando com o nascimento e saindo na morte) e do ego, que também se conhece como "espírito". A ideia de imortalidade deste implica num fenômenno de reencarnação, que está em todos os povos, de uma forma ou de outra, menos nos cristãos, que preferem ter uma única vida material preparatória para uma vida eterna no  paraíso ou no inferno.

Crenças à parte, neste momento, queremos registrar apenas, para terminar esta crônica, no dia dos mortos, o fato de que morre o corpo, definitivamente, sem retorno. O que se guarda, na memória, é o ego. Lembramos de nossos parentes e amigos mortos, naquilo que ele fazia, como o fazia; o que dizia, como o dizia; o que queria e propunha... e em síntese, naquilo em que uma pessoa é única: a memória que temos dela, inclusive o seu nome. Em tudo isso, foi única. Quem não valoriza e preserva sua imagem, perante o mundo, a nação, a comunidade, a família, jamais será lembrado, depois de morto, porque simplesmente não deixou obra realizada nem registro do que fez. Este indivíduo realmente morre para sempre. De fato, não valeu a pena ter vivido, porque apenas passou. 

Adinoel Motta Maia

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

QUEM ACEITA FRUTA ESTRAGADA

Crônica

Estou vindo do Gabinete Português de Leitura, onde iniciamos a III Semana da Baía de Todos os Santos, com uma sessão informal no auditório e a abertura de exposição intitulada "Naufrágios na Baía de Todos os Santos". Conversou com as pessoas presentes, o Prof. Eng. José Goes de Araujo, autor do livro Naufrágios e Afundamentos na Costa Brasileira, do qual se tirou elementos para situar num grande mapa da BTS, os lugares onde se encontram embarcações afundadas. Referiu-se ele ao fato de que antes de termos sequer equipamentos apropriados para mergulhar ali, os americanos vieram e levaram tudo o que encontraram nos barcos naufragados. Depois disso, conseguiu-se os tais equipamentos e foram realizados os mergulhos que ainda acharam alguma coisa. Os achados oficiais renderam peças para nossos museus. Os outros, para colecionadores particulares ou pessoas que ainda os tentam comercializar. Recentemente, noticiou-se em jornal, que alguém encontrou um canhão no fundo do mar, nas proximidades do Rio Vermelho. Seguiu-se a informação de que a Marinha foi lá e tomou o canhão. Finalmente, ouviu-se dizer: "Bem feito! Quem mandou abrir o bico?"

Este é um exemplo do que ocorre com tudo neste Brasil, onde se cata fruta estragada no chão, para não se ter o trabalho de subir na árvore. Estamos acostumados em ficar com o aceitável, por não sairmos atrás do perfeito, por não querer chegar primeiro, por não se valorizar - por falta de educação - o que os povos educados valorizam. O que se entende como cultura, desde a escola, aqui, é o som que induz ao sacolejo do corpo. Nestes dias, estou lendo nos murais que a Biblioteca Pública da Bahia está relizando festa de música e dança, certamente porque não consegue atrair mais ninguém para os livros. Para não perder o emprego por não ter o que fazer, os bibliotecários agora balançam as nádegas, tentando assim garantir a frequência nas bibliotecas.

Estou a ouvir os nossos gênios da pedagogia: "Não se deve forçar a criança a aprender ou fazer o que não quer!" Quem não quer usar o cérebro, pode, assim, usar o corpo. Assim, o que importa, hoje, na escola, é a presença do aluno em sala de aula. Não se reprova mais por falta de conhecimento. O que está no manual é aprovar todos para que no ano seguinte, outra turma tenha sala onde sentar. Ao fim do curso, as estatísticas mostram que temos mais tantos e quantos jovens prontos para o vestibular, não havendo problema para os que sabem menos, porque estes - os menos ruins - vindos de escola pública, terão aprovação assegurada pelo regime de cotas. Engana-se nossa juventude, como se engana os adultos com esmola. Esmola é o dinheiro que se gasta para manter a miséria. Educação é o dinheiro que se gasta para formar cidadãos independentes. Bolsa família é esmola que engana o povo que não sabe que vai continuar lá embaixo. Não exige que o filho de quem a recebe estude e seja aprovado. Exige apenas que seja matriculado na escola. Uma farsa. Um crime porque é vendido como remédio. Não é remédio. É apenas analgésico.

Fica, assim, todo mundo dançando e cantando e achando que, por isso, está tudo bem.  O mal é que  anestesiando o povo, monta-se um crescente cataclismo para explodir no futuro. Muita gente vai morrer sorrindo porque não teve tempo de perceber o perigo. Quem anda no escuro, cai no abismo pensando que está subindo ao céu. Não vê coisa alguma!
Adinoel Motta Maia

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

PERGUNTAR É PRECISO!

Crônica

Sentar numa varanda, num fim de semana - com ou sem biscoitos e suco de laranja - para ler um bom romance policial de mistério, é sempre um prazer que se renova a cada capítulo. Os bons romances policiais de mistério são aqueles nos quais o crime é o que menos importa, valorizando-se o trabalho racional do investigador. Quando o autor é dos bons, a trama é enriquecida com informações e análises psicológicas, históricas, geográficas, entre outras, dando ao leitor a sensação de estar mergulhado no espaço tetradimensional da narrativa.

No âmago das estórias detetivescas, encontra-se sempre uma pergunta que permanece ao longo do texto: qual o motivo do crime? Em outras palavras: quem ganha com a morte de uma pessoa? Em sequência: quanto ganha, para valer o risco de ter a sua própria vida destruída?

Trasladando o cenário literário para a vida de uma cidade ou de uma nação, os mistérios são os do crime de corrupção, aquele pelo qual o serviço público transforma-se em oportunidade para o faturamento ilícito, sob a proteção da lei, que diz não haver crime se a Lei não o prever, pedra fundamental do Direito que não pretende fazer Justiça. Assim, por exemplo, se um assaltante agride a murros sua vítima, depois dá-lhe um tiro na perna, seguindo-se uma facada em área abdominal e finalmente a matando com dentadas no peito, comendo o seu coração; esse agressor só poderia ser julgado por assalto a mão armada, mas jamais por assassintato, pois a Lei não preveria morte por antropofagia. Em outras palavras: a Lei não estabelece pena para quem ganha alguma coisa, comendo gente.

Vem, assim, a pergunta genérica, quando se tem um problema não resolvido e se quer chegar ao culpado pela causa ou pela omissão: "quem está ganhando com isso?" Por exemplo: quem está ganhando com a falta de transporte público com qualidade e quantidade pelo menos satisfatórias? Ou ainda: quem ganha com a migração desenfreada das pessoas do campo para as cidades (grandes ou não)? Mais uma: quem ganha com as invasões de encostas? Ou: quem ganha com o caos da educação no Brasil? Um últmo exemplo: quem ganha com a péssima saúde pública?

Como não há previsão na Lei, para administradores públicos em cargos distribuídos politicamente e não por promoção em carreira, que se omitem ou agem erradamente, isto é, sem um rumo definido e correto, em benefício de pessoas ou grupos interessados no caos, essas pessoas não podem ser julgadas nem punidas.

Por outro lado, surge já bem para cá do horizonte, uma prática generalizada de valorizar e até elogiar o administrador público que promove a criação de empregos, depois de estimular práticas de aumento populacional, sempre com o objetivo de aumentar os mercados e assim beneficiar os produtores que precisam vender cada vez mais. Com essa meta, dita econômica, surge uma outra pergunta, que é praticamente uma instrução: se você pode complicar, por que quer simplificar? A complicação cria empregos. Quando se cria um imposto, além do aumento da arrecadação, aumenta-se a máquina arregadadora, com novos empregos a serem distribuídos politicamente, assim como a máquina fiscalizadora com iguais propósitos e assim por diante, numa cadeia inflacionária incontrolável.

A nós, cidadãos omissos, nesse cenário, compete apenas obedecer e pagar, obrigados a votar em candidatos que não escolhemos e que permanecem irremovíveis por décadas em carreiras políticas que só se encerram com suas mortes. Por isso, aumenta o número de votos nulos e em branco, nas eleições. Precisamos de uma lei que anule as eleições em que a soma desses votos com o número de abstenções for maior do que vinte por cento, por exemplo, ocorrendo assim a obrigação dos partidos indicarem outros candidatos.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

OS DESCARADOS SERÃO MAIORIA

Crônica

Um dos porteiros do prédio onde moro está revoltado, por ter viajado para votar, na cidade de onde veio para Salvador. Seu candidato a prefeito perdeu a eleição, mas o motivo do seu aborrecimento foi a abordagem que lhe fizeram, oferecendo-lhe 350 reais para votar no candidato que ganharia a eleição. Diz ele que muita gente aceitou a oferta e trocou de candidato. Nenhuma novidade. Prática antiga, o que tem mudado é o modus faciendi. Antigamente, na roça, trocava-se o voto por um saco de farinha, uma dentadura postiça ou um par de sapatos (um pé antes da eleição e outro depois). Nas cidades, o prefeito que dava transporte para levar a parturiente à maternidade, ganhava toda a família como eleitora na eleição seguinte. Havia uma certa "honra" em não aceitar dinheiro. Hoje a pessoa se vende por dinheiro, mesmo. Com a maior tranquilidade, dando risada e aceitando pouco. Um indivíduo que faz isso, não vale nada.

Evidentemente, olhando tudo o que acontece, estamos vendo que se lutou pela democracia nas ruas, exigindo-se "diretas já", mas a nossa democracia é uma farsa. Depois do "show de bola" que o nosso honrado Superior Tribunal de Justiça ofereceu a todos os cidadãos brasileiros, pela televisão, ao vivo, nestas últimas semanas, chegou a hora do tribunal eleitoral mostrar que não existe apenas para montar as seções de votação e ler, registrar e divulgar resultados das urnas eletrônicas, em "tempo recorde".  Só não viu quem não quís, aqui, em Salvador, placas publicitárias irregulares espalhadas pela cidade, em horas e dias, sem cumprimento dos prazos. Na avenida de vale do Canela, por exemplo, na véspera da eleição, tinha um carro de som fazendo propaganda eleitoral. No dia da eleição, os passeios à frente das seções de votação tinham tapetes de "santinhos". Alguém divulgou uma relação de candidatos multados? Pior do que tudo, no entanto, é a abordagem para a compra de votos, com dinheiro na mão.

Assim, apenas trocamos de ditadura. Tínhamos uma nefanda ditadura militar, feita com o poder das armas e agora caminhamos celeremente para uma criminosa ditadura financeira, na qual o Estado pode comprar consciências, criando e oferecendo cargos, aumentando benefícios individuais, oferecendo bolsas coletivas, negando educação e adotando outros tantos procedimentos que favorecem processos de corrupção, conforme se está comprovando em comissões parlamentares de inquérito e nos citados julgamentos do STF, para que um partido se mantenha no poder. Um dia, todos estarão dominados, se não houver uma reação de quem preza pela sua consciência e sua liberdade. Os descarados serão maioria e vencerão todas as eleições. Os tribunais eleitorais continuarão emitindo títulos de eleitor que já não são necessários. Continuarão fiscalizando pesquisas que nem sempre são fidedignas. Continuarão posando para retrato, no anúncio de recordes de velocidade nas apurações eletrônicas. Quando garantirão que a máquina partidária não foi usada para dar dinheiro e/ou merenda e transporte a quem frequenta comícios, por exemplo? Quando impedirão que empresas privadas façam doações de campanha em troca de contratos futuros?

A verdade é que o ser humano degradou-se, trocando seus valores de consciência, sua dignidade, sua honra, sua saúde e sua imagem perante seus filhos, por dinheiro, casas, carros, helicópteros, lanchas, aviões, viagens e festas milionários, na classe A e por bolsa família na classe D. Aos membros da classe média, deu-se mais trabalho e mais impostos. Os desclassificados miseráveis continuam com o direito de morrer na rua.

Tudo isso porque a educação é péssima, no Brasil. A doméstica é zero e a escolar é só estatística.
Evidentemente, os políticos são pastores que só dominam ovelhas ignorantes! Ricas e pobres...

Adinoel Motta Maia

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

OS PASTORES E SUAS OVELHAS

Crônica

Houve uma gestão municipal que terminou com uma unanimidade. Toda a população a acusava de ter colocado Salvador como a cidade mais suja do Brasil. Agora, a nossa cidade é vista por todos como a cidade mais escura do país, à noite. Temos avenidas na escuridão total, como se fosse uma rodovia interurbana no meio do mato. Na grande maioria das ruas, no entanto, o que se vê são lâmpadas acesas, mas sem capacidade de iluminação necessária e compatível com o nosso nível de tecnologia e civilização. O oposto do que acabo de ver em João Pessoa e do que vi no início do ano em Aracaju. Já não falo de Lisboa, Barcelona, Madrid, Sevilha, entre tantas outras por onde passei também neste ano, porque tem gente que ainda acha não se dever comparar o nosso potencial civilizatório com o dos europeus, por exemplo. Como se estivéssemos condenados a nos manter nos mais baixos níveis de educação, de saúde, de qualidade de vida e de comportamento social.

Quem não sabe das coisas, ignora-as, é ignorante e quer continuar assim. Parece estar escrito em sua testa: NÃO QUERO SABER DE NADA! NÃO ME INCOMODE! Quando perde o emprego ou fica doente, vai chorar no pé do caboclo! Nunca põe a culpa em si mesmo, em sua ignorância. Quem não sabe das coisas, vive acreditando no que ouve no rádio ou vê na televisão, ou no papo que já não é com os vizinhos, mas pelo celular. Dias atrás, uma mulher andava na rua, um pouco à nossa frente e por uns cinco minutos - íamos na mesma direção - ouví-a repetir "Ói, amiga!". "Ói", com acento agudo mesmo, querendo dizer "olhe". Hoje, há muitas pessoas que passam a maior parte do tempo penduradas no celular, apenas jogando conversa fora. Depois, queixam-se de sua pouca sorte...

A atual campanha política em vésperas de eleição municipal tem um componente ridículo, que mostra o nível do nosso eleitorado e o que cada membro dessa coletividade quer e espera dos candidatos nos quais votarão em 7 de outubro: os carros de som que circulam por nossas ruas e pedem votos aos eleitores. Há candidatos que nada propõem ou menosprezam qualquer proposta, optando por repetir uma musiquinha que martela nosso cérebro com seus nomes e seus números, numa demonstração cabal de que nada mais esperam dos seus eleitores do que eles são capazes, intelectualmente: ouvir musiquinha. Esses políticos ofendem os soteropolitnos, considerando-os incapazes de ouvir uma proposta e analisá-la. Basta colocar uma musiquinha no seu cérebro, dia e noite, todos os dias, para condicioná-los a optar pelo seu número, na urna eletrônica. Como se condiciona um animal qualquer...

Tal ofensa deveria ser o suficiente para baní-los da nossa cidade, mas isso não ocorre. São eleitos para um mandato de quatro anos como vereador. Alguém perguntou aos vereadores assim eleitos há quatro anos, o que fizeram durante todo esse tempo, que se possa mostrar, em Salvador? Alguns são famosos, populares, queridos pelo seu jeito de ser e suas propostas "sociais" que não promovem os indivíduos nem os capacitam para exigir seus direitos de contribuintes, mas os deixam como estão, na ignorância e no gosto pelas festas, longe dos estudos, das análises e da busca das causas dos seus problemas. Verdadeiras ovelhas que dependem de seus pastores.

Não é só em Salvador.  Nós sabemos que há municípios - são 5568 em todo o Brasil - incapazes de produzir recursos sequer para pagar suas despesas administraivas e que vivem da boa vontade do governador ou do governo federal.  Nestas eleições, temos 481.446 candidatos a vereador em todo o Brasil. Somente 57.422 serão eleitos. Somente! Consideram-se políticos e como tal, querem viver sustentados pelo Estado, com o dinheiro que os cidadãos que produzem pagam em forma de impostos. Temos todos de refletir sobre esses números. Não basta dizer que é o preço da democracia. Nós queremos a democracia, mas a nossa é muito cara e não dá o retorno que se espera de tal investimento. Vamos pensar nisso. Precisamos de vereadores que proponham o enxugamento das respectivas Câmaras Municipais. Menor custo para a máquina administrativa que visa mais gerar emprego público do que  levar progresso ou resolver problemas das comunidades.  Não se justifica ter município que não seja capaz de produzir para sustentar sua própria administração, pública. Já é hora de se saber quais são esses municípios e incorporá-los a outros. Quem vai fazer isso? Os políticos? Todos sabemos a resposta.
Adinoel Motta Maia


LEIAM TAMBÉM O MANIFESTO DO APOCALIPSE EM
http://adinoel-blogart.blogspot.com
 


sábado, 29 de setembro de 2012

UMA CASA PORTUGUESA


Crônica

   A presença portuguesa na Bahia, desde 1500 - aqui foi descoberto o Brasil - tem sido fundamental para diversos setores do nosso cotidiano, desde o idioma que todos falamos até a arquitetura e o urbanismo nas cidades em que vivemos. Salvador foi - como Brasília e cinco séculos antes desta - uma cidade planejada por arquiteto - em Lisboa - e inteiramene construída, então, com materiais vindos de lá, naqueles barcos aparentemente frágeis, que atravessavam o mar oceano com o custo de muitas vidas humanas, trazendo para cá o que há cinco séculos se conhecia como civilização.

   Raro é o indivíduo, nesta cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos - não aceito os hífens que artificialmente se bota entre estas palavras - que não tem sangue português em suas veias, sendo prova disso o sobrenome que cada um carrega. Exceto, portanto, os imigrantes recentes, de outras origens, somos todos, aqui, portugueses e luso-descendentes. Mesmo aqueles espanhóis, italianos, europeus, africanos e asiáticos em geral, que aqui aportaram e que daqui não saíram mais, acabaram casando com baianas descendentes de português.

   Assim, os 150 anos do Gabinete Português de Leitura, que começam a ser comemorados neste 2 de outubro - até março de 2013 - constituem motivo de orgulho para toda a cidade e todos os cidadãos. Nos seus salões, foram realizados muitos dos principais eventos da sociedade, da família soteropolitana, a exemplo dos bailes de debutantes, quando ainda não existiam os clubes socio-desportivos e os grandes hotéis. Na sua biblioteca, muita gente entrou não só para ler ou consultar as grandes obras literárias de romancistas e poetas da língua portuguesa, mas igualmente ali foi o lugar de leitura de jornais para muita gente que não os podia comprar a cada dia. Professores de escolas secundárias e de instituições universitárias sempre a frequentaram para fazer pesquisas e ensinar seus alunos a realizá-las.

  Mantido com recursos próprios, até hoje sem ajuda governamental, o Gabinete Português de Leitura de Salvador faz milagres financeiros para não fechar suas portas. Neste momento, sob a presidência do comerciante Manuel Bernardino da Silva, tem uma diretoria dedicada e conta com o apoio logístico do Consulado de Portugal, na figura do atual cônsul - José Manuel Lomba - sempre presente e entusiasmado colaborador, apesar de não haver dinheiro em Portugal - neste momento mergulhado na crise européia - para ajudar nas despesas do GPL. Basta dizer que a revista Quinto Império está atrasada em sua publicação anual. Nos últimos meses, sua biblioteca esteve fechada, por falta de bibliotecária e o antigo forro de madeira do teto de um dos seus salões teve de ser retirado, porque tão velha e fina estava essa madeira, que já parecia papel e começava a cair.

   Apesar das dificuldades do momento, o sesquicentenário tem uma comissão consultiva constituida por pessoas de proa da nossa sociedade, que organiza um calendário a ser cumprido até março do próximo ano. Estará sendo comemorado, portanto, com respeito ao passado e esperança no futuro, sendo este o momento de mostrar a toda a Bahia o quanto essa instituição pertence a ela, porque isso parece não estar sendo percebido.  Embora se pense que é uma associação dedicada exclusivamente à Literatura Portuguesa - ali está um grande acervo de obras literárias lusitanas - sua atual diretoria está se esforçando em mostrar que ela promove a Leitura e esta não é apenas artística, mas também filosófica, científica, tecnológica e até religiosa ou mística, não havendo limite para o conhecimento e a investigação intelectual.

   Assim, o Gabinete Português de Leitura é um lugar, sim, para reunir pessoas que dedicam tempo à atividade de pensar sobre o mundo e sobre si mesmo. É um lugar de encontro para trocar idéias e de ação individual para promover a cidade e a sociedade. É uma casa para os escritores, os artistas, os filósofos e os cientistas baianos. Basta bater à sua porta, quando ela já não estiver aberta. Espera-se, portanto, que os baianos se agreguem às comemorações desse sesquicentenário e as aproveitem para  se inserir no espaço e nas atividades dessa instituição. Que se lembre os seus fundadores e todos aqueles que continuaram com sua proposta e seu trabalho nestes 150 anos de sua existência.
  

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O ESPAÇO DA CIÊNCIA

Crônica

 Esta crônica das sextas-feiras está com atraso de dois dias, porque passei cinco deles na organizada, limpa e bem iluminada João Pessoa, a capital da Paraíba, aonde fui para me isolar e fechar a trama de A Trilha dos Santos do Mundo, o último romance da trilogia Nortada, que deverá chegar às livrarias no dia 21 de dezembro de 2012, no solstício de verão, aqui, no Hemisfério Sul. Assim, no dia 22 de setembro, no equinócio da primavera, eu estava ali, na Estação Ciência, cerca de 40 metros acima do nível do mar, na Ponta do Seixas - o ponto oriental extremo da América do Sul - cujas falésias de argila estão desmoronando pela ação das ondas, que já destruíram totalmente as alvenaias de pedra que sutentavam a elevada pracinha de Iemanjá - justamente a Rainha do Mar - separando aquela ponta da Praia do Cabo Branco, extremo urbano Sul da cidade, onde me hospedei para meditar, andar e - por que não? - comer peixe, camarão e carne do sol.

Era sábado e as 4 horas e meia, na madrugada, acordei para ver pela janela envidraçada, à minha frente, o Oceano Atlântico e imaginar, além do horizonte, a África. Um dos dois únicos dias do ano em que o dia e a noite têm exatas doze horas (equi, em grego, significa igual), naquele momento a luz solar já inundava o céu. É ali, o ponto onde o dia começa mais cedo, em toda a América do Sul e esse conhecimento geográfico nos leva a refletir sobre o nosso planeta a navegar no espaço cósmico sob a ação de forças gravitacionais gigantescas, ele atraído pelo Sol e este, pelo núcleo da galáxia, pondo tudo em movimento frenético que mal percebemos porque também são enormes as distâncias entre os planetas e entre as estrelas.

Naquele dia, às 9 horas, saí para o calçadão da Avenida Cabo Branco, iniciando minha caminhada em direção ao Sul e subindo para a Ponta do Seixas, com o objetivo de visitar a Estação Ciência, num maravilhoso conjunto arquitetônico e urbanístico dedicado às ciências e às artes que deveriam estar em prédios separados, mas que, infelizmente, sofre um processo de dominação artística com o "espaço-ciência" invadido por exposições fotográrica, de pintura e tapeçaria e de escultura, homenageando figuras da música popular, da ação social e até da política. O belíssimo prédio de fachadas geométricas espelhadas, tão leve que parece voar, preso ao solo por rampas externas, assim, em si, uma obra de arte, feito para o Espaço Ciência, tem apenas menos da metade de um de seus dois pavimentos aproveitado para um projeto universitário de robótica, um mini-planetário para não mais de dez pessoas deitadas no chão e algumas cadeiras em frente a um monitor onde se presume poder ver documentários científicos. Só isso...

Este é um sério problema não só da Paraíba. O povo brasileiro, por inteiro, está sendo conduzido pela mídia eletrônica e pelos políticos em funções administrativas para uma alienação científica danosa ao intelecto e ao corpo humanos. A informação que aumenta o conhecimento e a capacidade de raciocínio nos cérebros está sendo minimizada em benefício da emoção fácil que atrai as massas de cordeiros assim facilmente manobradas por seus pastores, sejam os políticos, sejam os religiosos, sejam os promotores de venda (anúncios publicitários e patrocínios) na mídia eletrônica, com forte apelo aos apetites sexual, visual e auditivo através da música e das artes cênicas ou plásticas. Tudo isso se reflete no comportamento social, na perda de saúde física e mental e na idiotização do povo, com elevado prejuízo para a evolução do ego e acelerado processo de massificação que transforma homens em animais (a palavra grega anima significa movimento) que cultivam apenas o próprio corpo.

Tudo isso deveria estar sendo explicado em muitos "espaços-ciência" em todo o Brasil, inclusive nas escolas, formando indivíduos capazes para constituir sociedades sadias e prósperas, ao contrário do gado humano que declaradamente é chamado de cordeiros ou ovelhas por diversos tipos de pastores.
A presença da arte nos espaços da ciência, portanto, faz parte do processo de atração dos poucos indivíduos que buscam o conhecimento, desviando-o no seu próprio ambiente para a emoção e a paixão proporcionadas pelas artes. Nada contra estas, desde que não contribuam para a animalização dos intelectuais. Evidentemente, Arte também excita o intelecto na medida em que valoriza os símbolos e a interpretação destes, estejam eles na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música, na Dança ou no Teatro. Não se deve estar contra essas manifestações, mas se deve, sim, estar contra a invasão do espaço da ciência por elas. Sem a ciência, sem a razão, sem o mistério e a investigação, o homem perde o lado direito do seu cérebro e volta à animalidade. Os animais também fazem arte (basta ver os desenhos que estão nas conchas das praias, por exemplo, alguns mais belos que os de alguns artistas humanos), mas, na superfície da Terra, só os humanos são cientistas, filósofos e místicos.

Adinoel Motta Maia